conto p’ra você

“Quem conta um conto aumenta um ponto”? Ah, é?

Pois então eu juro que é verdade, aqui, junto a pontos e vírgulas, pontos finais, pontos de exclamação, de interrogação e três pontos… que aumentarei tantos pontos que nem sei…e talvez depois nem saiba mais o que contei!

Paulo Peixoto de Campos

Vizinhança

De: Paulo Peixoto de Campos

Que saudade do perfume esperançoso das flores de jambo adormecidas n’água… Das estrelinhas do doce de carambola cintilando docemente na compota Bacará… Que saudade daqueles poucos do tanto que vivíamos: do carrinho de rolimã ladeira abaixo elevando a vida e alçando puros sonhos de futuro! Ah, que saudade de mim, que hoje mal me vejo e me encontro, assim, me avistando longínquo, mesmo sem distância; sentindo volta e meia esse gosto acre doce tragado, que me vem dos olhos nublados, caindo pelo céu da boca pra se esconder calado na caverna da garganta!
Mas hoje, não! Hoje eu vou sentir todas as saudades que me cabem e cabem em mim. Deixá-las ecoar. Eu vou me achar aqui como se fosse acolá, vou me pegar feito num pique-tá, lá no lá que me escondi de mim… lá, junto às minhas coisas e coisas minhas: coisas do baú das memórias! Pois é lá que eu estou, é lá que sou o que não cheguei a ser! Para lá é que eu vou! Pois eu, igual a quase todo mundo, sou vizinho de mim, não me habito, não me habitei! Olhei de fora, e de vez em quando, quando em vez, em determinadas datas só me visitei… e sempre fui embora…não era a minha casa aquela minha, era casa de outras pessoas…e de outras pessoas em mim…não eu, não minha!Bom menino fui, bom vizinho fui! Fui… E talvez seja, mas mal sei quem sou. No entanto, agora que me desculpem esses meus vizinhos tais: vão ter que arrumar outro lugar para morar: consegui um dinheirinho, vou comprar essa casa linda que, aliás deveria ter sido sempre minha e eu só olhava de fora! Sim! Vou pagar pelo que era para ter sido sempre meu, não tem problema, é lucro! Ah!… Posso até estar bem mais velho ou mesmo velho, mas vou me sentir uma verdadeira criança numa nova vida de verdade e verdades, tantas que poderei até mentir, sem medo!Abraçado a mim mesmo com espontaneidade infantil, me sorrindo pleno e simples, reencontrando a simplicidade dos meus puros sonhos de futuro! Futuro?
Nossa! Ufa! Que correria heim? Tantas pernas têm o pensamento! Eu cá comigo também me espanto e agradeço aos tropeços da vida que me fizeram cair em mim, aqui! Finalmente, por sorte, consegui me achar! Vou tirar esse meu cheiro de guardado, bater a poeira, dar um sopro novo e uma baforadinha pra dar brilho, esfregar uma flanela: aí eu vou ficar novinho em folha e ao mesmo tempo mais eterno do que um pergaminho!
Agora tenho que me despedir, vou pagar algumas contas atrasadas desse meu faz-de-conta e sei que terei outras tantas para depois; mas logo vou quitar essa casa e ela será realmente minha! Sei, já sei que o mundo é feroz, então vou me prevenir e botar um mundinho-cãozinho no meu quintal só para espantar o mal… As minhas lembranças boas vou cultivar nos jardins sob o perfume esperançoso das flores de jambo adormecidas n’água e junto das estrelinhas do doce de carambola cintilando docemente na compota de cristal Bacará; de tal modo vou cultivá-las que toda a vizinhança irá sentir o teor desse perfume e o gosto doce dessas minhas lembranças!
Toda a vizinhança irá sentir! Toda mesmo, inclusive eu, eu que sempre fui vizinho de mim!
Até logo…

 

A Casa Bem Assombrada

Paulo Peixoto de Campos

 

 Quem passa se admira do nada que se vê ali e no meio do vazio vislumbra vultos, sombras vagam  em silhuetas que dançam ao sabor dos ventos numa cantiga silenciosa;

com o  som das folhas percutindo ao fundo no fundo do quintal de um chão acinzentado de um cimento rachado e caindo lado a lado num barulho retalhado do telhado em duas – águas…

Que festa é esta que todos vêem e ninguém vê na velha casa sombria com seus fantasmas?

Fantasmas sedutores, mais presentes do que as senhoras e senhores que por ali passam sob o sereno da madrugada fingindo serenidade, tentando disfarçar passo a passo em passos mornos suas feições e faces face a  uma breve olhada ínfima e infinita que de relance  lançam para o mistério da casa feito quem olha com naturalidade para alguma parte do céu da noite estrelada, mesmo que só haja nuvens.

Pelo menos não assoviam numa tentativa vazia de disfarçarem mais ainda… Vai que

os fantasmas sedutores pensem que o assovio é pra eles, tipo um fiiiiu fiiiiu…aí,vixe…!

…Mas tinham mesmo que disfarçar, pois se sabe bem que fantasmas fingem que não existem só para a gente pensar que não existem mesmo, ficam bem escondidos e quando menos se espera eis que eles surgem para assustar, nos apavorar num momento sombrio das escuridões da alma…aí é que eles brincam, tripudiam, riem dos nossos medos ! Fantasmas são assim: se divertem assustando, não são lençóis, nem almas penadas! Que nada; são moleques de qualquer idade que  morrem(ainda, há há há!)de rir da nossa insanidade! …Mas voltando ao assunto, e nesse nosso caso para não deixar mesmo o assunto morrer, ouve-se dizer que os fantasmas dali são fantasmas fantasiados, que toda madrugada há festa, seus vultos bailam, suas sombras se misturam à luz de velas, se abraçam sombreando os vidros da janela, juntam almas! Então por que temer? Na verdade as pessoas que passam por ali não se espantam com a orgia daqueles fantasmas fantasiados, mas sim com os seus próprios fantasmas que, despertando daquela tal escuridão da alma, sonham com alguma luz (ou sombra e água fresca seria mais confortável!) sentindo uma enorme vontade de entrar na festa, naquela orgia, e se fantasiar também juntando suas sombras e assombros, misturando as fantasias  !

 Então o que agora mais assusta é esta alegre conclusão de que aquela casa na verdade não é mal, e sim é bem assombrada! Revela não os fantasmas dela, mas de quem olha extasiado de ver o que não via, as imagens da imaginação, o que nos salta e nos assalta  do mais recôndito de nós e nos põe e expõe frente à frente – tal um espelho de cristal que temos na alma – com a visão antes reclusa e agora mais nítida do que nunca de nós mesmos: aquelas almas  não são de outro mundo, são do nosso mundo, são nosso mundo! Fantásticos fantasmas que nos habitam lá no fundo!

…Mas e a casa? Ah, a casa sempre lá, dia e noite, noite e dia, todo dia: igualzinha, guardando todos os fantasmas, tantos fantasmas, fantasmas que não há…!

Mas e a casa? Eu mesmo repito e me pergunto; alguém, que não sei quem e de onde não sei, me responde também perguntando: casa, que casa?                                            

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